Há poucos espetáculos tão enternecedores na administração pública brasileira quanto o momento em que o ministro da Fazenda convoca seus pares de ministério para o sagrado sacrifício da austeridade orçamentária. Vestido com o jaleco cirúrgico do rigor fiscal e munido de um bisturi que mais parece uma espátula de manteiga, Fernando Haddad reúne a Esplanada com uma tese impecável: 'Companheiros, o déficit precisa ser zerado e todos nós teremos que cortar um pedaço da carne'. A resposta dos companheiros, contudo, vem em uníssono coral lírico: 'Corte a carne de quem quiser, ministro, desde que não encoste um dedo no meu filé mignon'.
A romaria ministerial ao Palácio do Planalto transformou-se numa batalha campal de chantagens afetivas. O ministro da Previdência, Carlos Lupi, jura de pés juntos que o orçamento das aposentadorias é uma cláusula divina intocável pelo homem; na Educação, Camilo Santana avisa que qualquer corte no programa Pé-de-Meia provocará o apocalipse pedagógico imediato; e na Saúde, Nísia Trindade lembra que retirar recursos das emendas hospitalares equivale a extinguir a vida biológica no território nacional. No final da rodada de conversas, a soma dos cortes sugeridos resultou em impressionantes dois reais e cinquenta centavos economizados no toner da impressora do terceiro andar.
Do lado de fora do centro cirúrgico, o mercado financeiro assiste à comédia com taquicardia em tempo real. Cada declaração de ministro dizendo que seu orçamento é intocável adiciona cinco centavos na cotação do dólar e faz os juros futuros subirem ao teto da estratosfera. Os analistas da Faria Lima arrancam os cabelos em frente às telas da Bloomberg: como atingir a meta fiscal primária num país onde a classe política considera despesa pública um direito humano fundamental inalienável?
Assim, o grande plano de contenção fiscal aproxima-se do seu desfecho tradicional na história republicana: para não desagradar a ninguém na Esplanada nem comprar briga com os caciques do Centrão, a equipe econômica decide que o melhor corte é aquele que só entrará em vigor no mandato do próximo presidente. Haddad guarda o bisturi, enxuga o suor da testa e prepara o próximo discurso no auditório da Fazenda, jurando que o cofre da União está perfeitamente equilibrado — desde que o contribuinte brasileiro continue aceitando pagar a conta da anestesia.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Anestesia Geral Prometer cortes profundos de dezenas de bilhões de reais sem que nenhum ministério, emenda ou subsídio sofra redução de despesa.
- • O Bisturi de Borracha Usar uma lâmina cirúrgica tão maleável que, ao invés de cortar gastos, acaba criando duas secretarias novas e três cargos de confiança.
- • A Solidariedade Invertida Defender ardorosamente a austeridade fiscal para todos os outros ministérios da Esplanada, exceto o seu próprio.
- • O Déficit Perpétuo Descobrir que a única despesa que ninguém consegue cortar em Brasília é a folha de pagamento da hipocrisia orçamentária.
O Ministério da Fazenda, liderado por Fernando Haddad, enfrentou forte resistência interna de ministros do próprio governo (como Carlos Lupi, da Previdência; Camilo Santana, da Educação; e Nísia Trindade, da Saúde) para fechar o pacote de cortes de gastos obrigatórios exigido pelo arcabouço fiscal e cobrado pelo mercado para conter a alta do dólar e dos juros.