A arte da cirurgia orçamentária em Brasília obedece a uma regra anatômica rigorosa e ancestral: corta-se a carne viva do cidadão comum para manter intocável a grossa camada de gordura dos privilégios corporativos. Enquanto a equipe econômica anunciava com pose de estadista a necessidade inadiável de enquadrar as despesas de assistência social e cortar verbas de postos de saúde, a Praça dos Três Poderes cuidava de erguer um muro blindado de proteção ao redor da casta mais dispendiosa da República: as pensões vitalícias das Forças Armadas e os penduricalhos milionários do Poder Judiciário.
A justificativa técnica para a imunidade dos intocáveis é de uma solenidade constrangedora. Para os generais de pijama e seus herdeiros, mexer no regime previdenciário militar desestabilizaria a 'segurança e a hierarquia nacional'; para os magistrados e membros dos tribunais superiores, auditar os auxílios-moradia, auxílios-livro e indenizações que turbinam contracheques para além de cem mil reais mensais configuraria um atentado mortal contra a 'independência funcional'. Na prática da Esplanada, o patriotismo das altas patentes termina onde começam os seus benefícios adquiridos com dinheiro público.
Enquanto isso, na ponta mais frágil da linha de produção do país, um aposentado por invalidez terá de provar pela vigésima vez que não tem capacidade física para trabalhar para não perder o direito a uma cesta básica. A lógica política é implacável: como o beneficiário do INSS não possui brigadas blindadas de tanques nem pode trancar pautas de julgamentos no Supremo Tribunal Federal, a tesoura do governo avança sobre o seu prato de comida com a voracidade de quem descobriu a salvação milagrosa do déficit primário.
O ajuste fiscal à brasileira é, em essência, um tributo feudal disfarçado de modernidade macroeconômica. Quando o Estado decide que não tem recursos para bancar remédio de pressão no posto de saúde e auxílio-doença para o operário, mas encontra dezenas de bilhões no mesmo orçamento para sustentar banquetes de lagosta de farda e de toga, a mensagem oficial ao povo é cristalina: o dever cívico do súdito é sangrar na crise para que a corte de Brasília possa continuar desfrutando da festa em paz.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Blindagem da Farda Bater continência para a bandeira e defender a pátria é dever de todos; cortar as pensões de filhas solteiras de generais é considerado crime de lesa-majestade.
- • A Imunidade da Toga Juiz com supersalário de cem mil reais é garantia de estabilidade democrática; idoso de baixa renda com BPC de um salário mínimo é rombo insustentável.
- • A Matemática dos Covardes A coragem fiscal da equipe econômica cresce proporcionalmente à fraqueza do alvo: é leoa contra o desempregado e gatinho manso diante das Forças Armadas.
- • O Sacrifício dos Outros Austeridade fiscal é um conceito sublime que os governantes de Brasília adoram aplicar com rigor espartano na geladeira alheia.
Nesta quarta-feira (28 de outubro de 2026), a divulgação dos estudos da equipe econômica do presidente Lula para o pacote de revisão de gastos gerou forte repercussão ao focar no corte de programas sociais e benefícios previdenciários e trabalhistas (BPC, seguro-desemprego, saúde e educação), enquanto deixou de fora medidas de corte nas despesas das Forças Armadas (pensões militares) e no controle de penduricalhos que elevam a remuneração de juízes e membros de cúpula do funcionalismo acima do teto constitucional (supersalários).