A diplomacia presidencial brasileira sempre se orgulhou de cultivar uma elegância aveludada, onde mesmo a mais brutal das punhaladas pelas costas é desferida com um sorriso afável e uma taça de vinho do Porto na mão. Foi exatamente essa alta escola que entrou em cartaz na cúpula de Kazan, quando o governo Lula resolveu acionar o ferrolho do BRICS bem no instante em que Nicolás Maduro já estendia o braço para pegar o canapés de caviar do banquete internacional. O companheiro bolivariano, que viajou milhares de quilômetros esperando um abraço fraterno, encontrou apenas o bilhete educado de que 'a lotação da casa estava esgotada'.
A reação em Caracas foi digna dos melhores folhetins caribenhos. Do alto de seu palanque televisivo, Maduro declarou guerra semiótica ao Itamaraty, acusando diplomatas brasileiros de serem agentes infiltrados do imperialismo ianque, espiões fantasiados de embaixadores e traidores da grande pátria socialista. Em Brasília, o assessor especial Celso Amorim limitou-se a suspirar com a tranquilidade de quem já sobreviveu à Guerra Fria e a duas reformas ministeriais, lembrando que cobrar a exibição das atas eleitorais nunca foi considerado ato de agressão armada na cartilha de Genebra.
No Palácio do Planalto, o pragmatismo falou mais alto do que a nostalgia dos comícios de Porto Alegre nos anos 2000. Carregar o regime venezuelano no colo em fóruns multilaterais tornou-se um esporte caro demais para um presidente que já precisa administrar o humor azedo da Faria Lima e as cobranças diárias do Congresso Nacional. Lula percebeu que posar ao lado de Maduro em fotos oficiais equivalia a assinar um manifesto pedindo mais dez pontos percentuais na taxa de risco do Tesouro Nacional.
Assim, a 'fraternidade dos povos' foi cordialmente arquivada na gaveta dos assuntos pendentes. Enquanto o ditador venezuelano gesticula na televisão jurando que o espírito de Bolívar punirá os ingratos, a diplomacia brasileira treina sua mais nova expressão facial diante dos espelhos do Palácio do Itamaraty: aquele olhar distraído de quem olha para o horizonte, assobia uma marchinha de carnaval e finge que nunca viu o vizinho barulhento na vida.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • O Ferrolho Proletário Trancar a porta do clube multipolar na cara do velho companheiro jurando que foi apenas um problema no leitor biométrico da portaria.
- • A Amnésia Geopolítica Esquecer vinte anos de declarações de amor eterno assim que as urnas de Caracas esqueceram de imprimir os comprovantes de votação.
- • O Charuto do Silêncio Deixar o Itamaraty emitir notas de profunda reflexão metafísica enquanto o vizinho chama a equipe brasileira de capatazes do Pentágono.
- • A Pragmática da Foto Descobrir que abraçar governos contestados desvaloriza a moeda nacional com muito mais rapidez do que qualquer declaração de Campos Neto.
Durante a cúpula dos BRICS em Kazan (Rússia), a diplomacia brasileira vetou o ingresso da Venezuela no bloco de parceiros, gerando uma crise diplomática aberta com o regime de Nicolás Maduro, que acusou o Itamaraty e o assessor especial Celso Amorim de agirem contra os interesses da integração regional após o Brasil não reconhecer o resultado eleitoral venezuelano sem a apresentação das atas.