A peregrinação de Fernando Haddad pelas ante-salas dos ministérios em busca de bilhões de reais para saciar a fúria do mercado financeiro e salvar o arcabouço fiscal produziu sua mais sublime obra de realismo fantástico. Após passar a lâmina afiada sobre o BPC, congelar verbas da saúde e apertar o cerco sobre os cadastros de beneficiários de programas sociais, a equipe econômica achou por bem cruzar a rua da Esplanada e bater à porta do Ministério da Defesa com uma proposta audaciosa: revisar os privilégios previdenciários e as pensões vitalícias que sustentam dinastias inteiras de herdeiros fardados.
A recepção dos generais à tentativa de auditar o soldo foi de uma frieza polar digna da Sibéria. Bastou o ministro José Múcio Monteiro repassar a sugestão de mexer na aposentadoria da caserna para que o Alto Comando sacasse o manual de etiqueta patriótica. Para as Forças Armadas, cortar o auxílio do trabalhador que ganha um salário mínimo é uma necessidade macroeconômica imperiosa; mexer na pensão das filhas de coronéis e nos soldos integrais da reserva é um atentado hediondo à soberania nacional e à honra das três armas.
O constrangimento do Ministério da Fazenda expõe a assimetria comovente da austeridade tropical. Enquanto ministros civis das pastas de Educação e Trabalho são convocados ao Planalto aos berros e obrigados a sangrar orçamentos diante de câmeras de TV, as negociações com a Defesa transcorrem em tom de chá das cinco com biscoitos de nata e veludo nos ouvidos. Ninguém ousa elevar o tom de voz diante de uma farda condecorada, sob a justificativa de que 'a tropa precisa de estabilidade psicológica' para continuar pintando meios-fios e gerando notas protocolares de desagravo.
No encerramento dessa valsa orçamentária, a fórmula tradicional do pacto de Brasília prevalece intacta. Haddad sairá do palácio anunciando um corte histórico de dezenas de bilhões de reais para acalmar a Faria Lima, composto quase integralmente por sacrifícios exigidos do andar de baixo da pirâmide civil. Para os militares, restará a glória imutável da folha de pagamento integral, provando que na República do pau-brasil a espada pode ser cega para o combate, mas continua afiadíssima para fatiar o orçamento da União.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • O Teorema do Soldo Intocável Comprovar que a inflação e o déficit das contas públicas são causados exclusivamente pelos civis que dependem do salário mínimo.
- • A Blindagem da Dragona Classificar qualquer tentativa de auditoria de benefícios da caserna como uma ameaça à integridade territorial do continente.
- • A Tesoura de Papelão Ver o ministro da Fazenda cortar como um leão nas pastas sociais e negociar como um gatinho ronronando na porta do quartel.
- • O Sacrifício dos Outros Publicar portarias inflamadas exigindo austeridade do cidadão enquanto a reserva comemora reajustes automáticos com champanhe no clube militar.
A inclusão das Forças Armadas e da previdência dos militares nas negociações do pacote de corte de gastos conduzido por Fernando Haddad gerou forte resistência do ministro da Defesa, José Múcio, e dos comandantes militares, que rejeitaram alterações profundas em pensões e benefícios em meio à pressão fiscal do governo.