A República brasileira atingiu aquele estágio superior da maturidade institucional em que as eleições deixam de ser uma disputa de projetos para se transformarem em uma bem-sucedida sessão da tarde: todo mundo já sabe as falas de cor, ninguém se surpreende com a reviravolta do terceiro ato e o vilão e o mocinho tomam cafezinho juntos no intervalo da transmissão.
Pelos corredores acarpetados de Brasília, a perspectiva de uma nova corrida ao Planalto é tratada com a naturalidade de quem renova a assinatura de um serviço de streaming que ninguém assiste, mas que todo mundo tem preguiça de cancelar. Auxiliares graduados circulam com pastas de couro e semblantes graves, calculando a milimétrica engenharia de acomodar os mesmos caciques nas mesmas secretarias sob novos e pomposos organogramas ministeriais.
A oposição, por sua vez, ensaia a costumeira indignação de palanque com o vigor de quem lê a bula de um analgésico genérico. Promete tempestades fiscais, ameaça CPIs com nomes de animais silvestres e jura que desta vez a locomotiva estatal será freada na marra — para, logo em seguida, conferir se a sua fatia das emendas de comissão caiu no prazo bancário estabelecido pela liturgia do Congresso.
Ao final da sessão, descortina-se a única verdade inalterável desde a Proclamação da República: governos passam, coalizões se reinventam, faixas presidenciais ganham novos remendos, mas a máquina de carimbos continua azeitada e a conta da bilheteria segue debitada pontualmente na folha de pagamento do trabalhador brasileiro.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Fita Rebobinada Discursos idênticos aos de vinte anos atrás, lidos com o frescor de quem acabou de inventar a roda da gastança pública.
- • O Ministério do Faz-de-Conta Criação de novos departamentos para abrigar aliados desocupados sob a nobre justificativa de pacificação nacional.
- • A Fúria de Papelão Discursos inflamados na tribuna do plenário seguidos de abraços fraternais no buffet do restaurante dos senadores.
- • O Boleto Vitalício A única política de Estado verdadeiramente perene e imune a crises: o contribuinte trabalhando seis meses por ano para sustentar o circo.
Com a proximidade do calendário eleitoral e as articulações antecipadas para 2026, o presidente Lula tem sinalizado a interlocutores a disposição de disputar o quarto mandato presidencial, enquanto a base governista e a oposição aceleram os cálculos de coligações e acomodações no Congresso Nacional.