Há poucos espetáculos no teatro político do Planalto tão comoventes quanto as reuniões ministeriais de 'disciplina fiscal'. Trata-se de uma cerimônia litúrgica em que o presidente da República reúne sua portentosa esquadra de quase quarenta ministros para anunciar, com ar de severidade espartana, que a gastança desenfreada chegou ao limite. Em seguida, com a mesma solenidade, o chefe do Executivo avisa que Saúde, Educação, Previdência, Transportes, Defesa, Cidades e as emendas parlamentares estão estritamente blindadas contra qualquer tipo de redução.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ouve as diretrizes com aquele olhar de quem tenta calcular a raiz quadrada de uma melancia com uma régua de plástico quebrada. A missão encomendada pela cúpula do governo desafia os postulados elementares da física e da aritmética: a Fazenda precisa apresentar um pacote de corte de despesas de pelo menos cinquenta bilhões de reais para acalmar a Faria Lima e segurar o dólar, mas tem autorização para economizar exclusivamente no café passado dos gabinetes e nos clipes de papel da portaria.
Do outro lado da mesa, os ministros das pastas sociais e do Centrão observam a cena com a tranquilidade de quem sabe que suas emendas e cargos são sagrados. Cada ministro já chega à reunião com um dossiê pronto provando que o seu ministério específico não apenas não pode sofrer cortes, como precisa de uma suplementação orçamentária urgente para evitar a paralisação do planeta Terra. O titular da Previdência jura que o pente-fino no BPC é desumano, o do Trabalho avisa que o seguro-desemprego é intocável e os líderes partidários avisam que sem emenda Pix o governo não aprova nem voto de pesar na Câmara.
Ao final de seis horas de café colonial e discursos patrióticos, o presidente encerra o conclave com um tapinha nas costas da equipe econômica e uma declaração para a imprensa garantindo que 'o ajuste fiscal está pronto e será indolor'. Indolor, decerto, para quem está sentado nas cadeiras estofadas da Esplanada dos Ministérios; para quem vai pagar o imposto sobre a carne moída e a alíquota embutida na conta de luz, a tesoura do governo continua afiada como uma lâmina de barbear.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • O Teorema da Tesoura Sem Fio O governo inventou a primeira dieta de redução de peso do mundo em que o paciente corta apenas a alface e dobra a porção de torresmo.
- • A Matemática do Alvorada Cinquenta bilhões de economia menos quarenta bilhões de concessões ao Centrão é igual a um novo imposto de setenta bilhões no lombo do contribuinte.
- • A Rebelião dos Companheiros Cada ministro jura fidelidade cega ao teto de gastos, contanto que o teto desabe exclusivamente na cabeça do vizinho de gabinete.
- • O Fator Indolor O ajuste fiscal não dói nada no ministro de Estado; o problema é a anestesia que nunca chega ao cidadão que tenta fechar o mês com o salário mínimo.
Sob forte pressão do mercado financeiro e diante da alta do dólar e das taxas de juros, o presidente Lula convocou reuniões de emergência com a equipe econômica e ministros das áreas sociais para formatar um pacote de corte de gastos obrigatórios, enfrentando resistências internas de pastas como Previdência, Trabalho e Saúde.