Dizem os historiadores mais atentos das esquerdas latino-americanas que nada une tanto os companheiros de partido quanto a perspectiva de subir a rampa do poder, e nada os separa com tamanha ferocidade quanto a disputa pela sucessão da máquina partidária após uma derrota eleitoral estrondosa. Com o fim anunciado do longo reinado da deputada Gleisi Hoffmann na presidência nacional do Partido dos Trabalhadores, os bastidores da legenda foram subitamente convertidos em uma arena de gladiadores burocráticos onde correntes internas digladiam-se por cada centímetro de influência sobre a sigla.
De um lado do ringue, a todo-poderosa corrente Construção Nacional (CNB) — a ala majoritária que comanda o partido com mão de ferro há décadas — tenta emplacar um sucessor domesticado para manter o controle absoluto das verbas do Fundo Partidário e blindar a linha pragmática de alianças com o Centrão. Do outro lado da trincheira, as correntes minoritárias da ala esquerda sacam seus manifestos teóricos de trinta páginas redigidos em jargão marxista dos anos 1970, acusando a cúpula de ter traído as bases históricas, transformado o partido em um anexo da Fazenda de Fernando Haddad e abandonado a luta de classes em troca de jantares com Gilberto Kassab.
O espetáculo do fogo amigo petista é fascinante pela sofisticação dos seus métodos de aniquilação mútua. Em vez de socos e pontapés vulgares, a artilharia pesada das correntes é disparada por meio de notas oficiais envenenadas vazadas para colunistas de Brasília, vetos tácitos em comissões executivas e debates infinitos sobre teses políticas que ninguém fora da sede nacional do partido se dá ao trabalho de ler. Enquanto o Centrão e a oposição avançam como tratores sobre as prefeituras e consolidam palanques no interior, os cardeais da estrela vermelha gastam semanas preciosas discutindo vírgulas de resoluções internas.
No meio da balbúrdia fratricida, todos os olhares convergem, invariavelmente, para o Palácio da Alvorada, onde o presidente Lula tenta governar o país enquanto atua como juiz de paz de uma família numerosa e briguenta. Aos 79 anos e cansado de apagar incêndios de diretório, o patriarca já avisou que o partido precisa aprender a caminhar sem exigir que ele assine a ata de cada reunião de núcleo de base. Mas a tradição fala mais alto: no PT, as correntes podem até brigar até a morte pela toalha da mesa, mas no final todas correm para o colo do criador na esperança de que ele decida quem vai sentar na cabeceira.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • O Fogo Amigo Teórico Nada é mais perigoso para um dirigente petista do que o companheiro de corrente rival armado com um manifesto de dez páginas sobre conjuntura internacional.
- • A CNB Intocável As correntes radicais podem reclamar, protestar e redigir cartas indignadas; na hora da contagem dos delegados, a ala majoritária sempre vence por 90% a 10%.
- • A Saudade do Sindicalismo Os cardeais partidários passam tanto tempo discutindo resoluções internas no ar-condicionado que se colocarem o pé numa fábrica hoje serão confundidos com a fiscalização do trabalho.
- • O Juizado de Menores de Lula O presidente é obrigado a despachar sobre o PIB pela manhã e gastar a tarde inteira decidindo quem vai ser o secretário de finanças do diretório estadual.
Com a proximidade do encerramento do mandato de Gleisi Hoffmann à frente do Partido dos Trabalhadores em 2025, intensificou-se a disputa interna entre as diversas correntes do partido — lideradas pela hegemônica Construção Nacional (CNB) e alas de esquerda — pelo comando nacional da sigla. O embate envolve divergências profundas sobre os rumos econômicos do governo Lula, a acomodação de espaço para partidos do Centrão e a estratégia de alianças para a sucessão presidencial de 2026 após o recuo petista nas eleições municipais.