A reunião ministerial convocada pelo Palácio do Planalto para apresentar a Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública tinha tudo para ser um solene espetáculo de cooperação federativa, com aperto de mãos engravatado, canapés de salmão e discursos inflamados sobre a integração dos computadores das polícias. O ministro Ricardo Lewandowski, com a elegância de quem passou a vida entre as togas aveludadas do Supremo, abriu a pasta de couro para propor a constitucionalização do SUSP e conceder poderes ostensivos à Polícia Rodoviária Federal. Bastou, contudo, a menção à palavra 'coordenação central' para que o cafezinho oficial azedasse de imediato.
Do outro lado da mesa redonda, os governadores de oposição Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado vestiram a carapuça de xerifes plenipotenciários e puxaram o freio de mão com estridência teatral. Acostumados a brandir a autoridade sobre suas respectivas tropas estaduais como se fossem exércitos privados de capitanias hereditárias, os chefes do Executivo de São Paulo e de Goiás entraram em curto-circuito republicano. 'Brasília não consegue tapar os buracos da própria Esplanada e agora quer dizer quantos homens eu coloco na viatura da esquina!', resmungou um dos mandatários, batendo o coldre simbólico na mesa de mogno.
A tese de defesa da autonomia dos estados transformou-se instantaneamente no novo cavalo de batalha da corrida antecipada para 2026. Para os governadores da ala conservadora, permitir que o governo federal defina diretrizes para as polícias militares equivale a entregar a chave do cofre e o rádio da viatura ao adversário ideológico. Pouco importa que as facções criminosas operem em escala multinacional com logística de multinacional e faturamento de petrolífera: na cartilha dos xerifes regionais, a soberania do asfalto municipal é mais sagrada do que qualquer banco de dados integrado.
O Planalto, por sua vez, reagiu com a habitual candura técnica de quem finge surpresa diante da politicagem mais previsível do hemisfério ocidental. Ao insistir na padronização dos dados e no controle do fluxo dos fundos penitenciários, o governo federal joga xadrez para emparedar os governadores na vitrine da segurança pública, transferindo para os estados a fatura do medo cotidiano do eleitor. E assim a República prossegue em sua marcha triunfal: os bandidos continuam com a logística integrada, enquanto as autoridades disputam quem tem a estrela mais brilhante no peito de lata.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Doutrina do Coldre Paroquial Defender que o crime organizado nacional deve ser combatido estritamente com divisas municipais e carimbos estaduais independentes.
- • O Pavor da Prancheta Ver governadores valentes entrarem em pânico generalizado com a possibilidade de ter que enviar relatórios semanais para Brasília.
- • A Polícia de Duas Velocidades Manter a integração das forças de segurança apenas no papel timbrado, para não misturar viaturas de partidos rivais na mesma blitz.
- • A Guerra dos Estetoscópios Cívicos Transformar a segurança da população no mais vistoso ringue de marquetagem eleitoral antecipada da sucessão presidencial.
A apresentação da PEC da Segurança Pública pelo ministro Ricardo Lewandowski e pelo presidente Lula provocou forte resistência de governadores de oposição, especialmente Tarcísio de Freitas (São Paulo) e Ronaldo Caiado (Goiás), que acusaram o projeto de ferir o pacto federativo e retirar autonomia das polícias estaduais (PM e Civil), acirrando o embate político nacional.