Há virtudes republicanas que apenas a alta alfaiataria é capaz de despertar. Quem observa o senador Flávio Bolsonaro circular pelos salões do Congresso Nacional, envelopado em impecáveis paletós de linho cru com caimento italiano, quase se esquece daquele tempo rústico em que o bolsonarismo se comunicava por meio de voadoras verbais no cercadinho da Alvorada. Hoje, o primogênito do clã converteu-se no próprio apóstolo da concórdia institucional. Sua missão evangélica? Vender aos pares a 'PEC da Anistia' como se fosse uma cota de fundo imobiliário de altíssimo rendimento.
Nas noites tépidas de Brasília, regadas a vinhos de guarda e travessas de crustáceos que fariam corar os tribunos de Roma, Flávio prega a reconciliação nacional com a serenidade de quem acabou de fazer uma massagem shiatsu. Segundo a sua doutrina pacificadora, os episódios do 8 de janeiro não passaram de um entrevero folclórico, uma excursão cívica com excesso de entusiasmo patriótico e pequenos danos materiais que já foram devidamente limpos pelo departamento de manutenção do Senado. 'É hora de virar a página', sussurra o senador aos ouvidos de líderes do Centrão, omitindo que a página seguinte traz a anulação de todas as inelegibilidades da árvore genealógica.
Para a plateia exigente da Faria Lima, o parlamentar apresenta sua mais sofisticada persona: o 'Bolsonaro que toma banho de espuma e lê relatórios de risco-país'. Diante de banqueiros que ainda estremecem ao lembrar dos panelaços, Flávio garante que o mercado precisa de segurança jurídica — e nada oferece maior segurança jurídica ao mercado do que fingir que o passado recente jamais aconteceu. O investidor estrangeiro, argumenta a nova oratória bolsonarista, não quer saber de inquéritos policiais, mas de taxas de juros civilizadas e jantares sem gritaria.
O problema é que, do outro lado da Esplanada, a bancada ideológica do próprio partido assiste à metamorfose com desconfiança visceral. Acostumados ao cheiro de pólvora e às lives frenéticas de motel de beira de estrada, os deputados raiz temem que o líder da oposição tenha sido abduzido pelo protocolo diplomático dos restaurantes cinco estrelas. Flávio, contudo, não se abala: sorri para as câmeras, ajusta o nó da gravata de seda e reitera que perdoar é divino — especialmente quando a caneta do perdão livra a própria família de ter que explicar o extrato bancário à Receita Federal.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Liturgia do Linho Cru Demonstrar que um paletó de três mil dólares tem o poder mágico de apagar registros de câmeras de segurança e decretos de prisão cautelar.
- • O Abraço Terapêutico Propor que a Suprema Corte e os invasores da Praça dos Três Poderes façam uma sessão de constelação familiar para selar a paz eterna.
- • A Faria Lima Amansada Convencer analistas de macroeconomia de que anistiar depredação de patrimônio público é uma reforma microeconômica estruturante.
- • O Perdão Preventivo Redigir um texto de lei tão generoso e abrangente que acabe anistiando multas de estacionamento e dívidas de condomínio desde 1889.
Em meio às negociações para a sucessão das mesas diretoras da Câmara e do Senado para 2025/2026, a cúpula do Partido Liberal (PL) e o senador Flávio Bolsonaro têm intensificado conversas de bastidores pela aprovação do projeto de anistia aos envolvidos no 8 de janeiro e políticos declarados inelegíveis, buscando ao mesmo tempo construir pontes de moderação com o empresariado e o setor financeiro.