Não há nada mais comovente no folclore nacional do que a promessa de despedida do bom vivant da política. É o equivalente àquele tio do pavê que anuncia, pela décima vez na ceia de Natal, que vai parar de beber e fechar a matraca, logo antes de pedir mais uma dose de cachaça e puxar o coro do 'já que tá todo mundo aqui'. Do alto dos palanques maranhenses, o nosso eterno candidato olhou nos olhos do povo com aquela sinceridade de vendedor de carro usado e decretou o inusitado: esta é, juro por Deus, a derradeira vez que ele cata os votos da nação. Um verdadeiro 'adeus, mas não me leve a mal', digno de novela das oito.
A promessa veio acompanhada daquele cardápio de dar água na boca e dor de cabeça no ministro da Fazenda. Tem Pé-de-Meia para universitário, tem indústria verde, criativa, digital e até o papagaio do vizinho diplomado em robótica. É a velha arte de governar no gogó, onde o futuro é sempre cor de rosa-choque e a conta chega em suaves prestações no lombo do contribuinte. O distinto cavalheiro jura que o próximo mandato será 'histórico', como se os anteriores tivessem sido apenas uma esquete humorística ensaiada antes da estreia oficial no teatro dos sonhos da Esplanada.
O grande segredo dessa longevidade artística é que a oposição, quando tenta cobrar fatura, parece mais um coral de igreja desafinando na procrição. Enquanto o governo distribui promessas de bolsas e cafunés institucionais, o andar de cima do poder assiste a tudo com aquela cara de quem já garantiu a boquinha no conselho de administração de estatal. No fim das contas, a política virou um eterno casamento de fachada: todo mundo sabe que a relação faliu, mas ninguém tem coragem de assinar o divórcio porque a pensão alimentícia paga pelo Tesouro Nacional é boa demais para ser largada.
Assim, o brasileiro vai levando a vida na base da fé e do boleto vencido, aplaudindo o artista que nunca sai de cartaz. Dizer que é a última campanha é apenas uma estratégia de marketing digna de turnê de despedida de banda de rock dos anos 80 — aquela que faz cinco 'últimos shows' por ano em cidades diferentes. O camarada sai do palanque prometendo a lua, o eleitor finge que acredita na bondade do Papai Noel do agreste, e a fatura do buffet, obviamente, fica pendurada na caderneta da Dona Maria, que trabalha trinta dias para pagar imposto até sobre o vento que respira.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Liturgia da Rasteira Prometer a aposentadoria política enquanto afia o paletó para mais quatro anos de palanque.
- • A Promessa de Papelão Inventar bolsa para tudo quanto é canto, transformando o orçamento público em piñata de festa infantil.
- • O Malabarismo Fiscal Garantir que a indústria verde vai pagar o café da manhã de duzentos milhões de brasileiros.
- • O Boleto Soberano A conta do mandato histórico que sempre aterra, pontual e implacável, na folha de pagamento do otário.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, durante evento de campanha no Maranhão, que esta será sua última disputa pela Presidência da República e prometeu um mandato 'histórico' focado em expansão de programas sociais como o Pé-de-Meia para universitários e investimentos em tecnologia e energias verdes.