Há talentos na política brasileira que transcendem a mera atividade parlamentar para flertar descaradamente com a corretagem imobiliária de alto luxo. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), homem que já demonstrou faro aguçado para a compra de imóveis valorizados e transações que fariam um investidor de Wall Street chorar de inveja, encontrou uma nova vocação patriótica: olhar para os mais de sete mil quilômetros de praia da costa atlântica e enxergar não a soberania nacional ou a farofa do domingo, mas um gigantesco loteamento fechado pronto para receber cancela automática, leitor facial e taxa de condomínio em dólar.
Na condição de relator da famigerada PEC dos Terrenos de Marinha — carinhosamente rebatizada pelo inconsciente coletivo de 'PEC da Privatização das Praias' —, o senador subiu à tribuna do Senado com ares de visionário de Dubai. Com a convicção de quem nunca precisou disputar dois palmos de areia fofa levando um guarda-sol quebrado amarrado com arame, Flávio jurou de pés juntos que a proposta é a coisa mais democrática do planeta. A ideia seria dar 'segurança jurídica' a quem ocupa a orla e atrair megaprojetos turísticos. Na tradução simultânea do dialeto do poder para o português de quem anda descalço no asfalto quente: se você for um fundo árabe querendo erguer um resort com praia privativa cercada por arame farpado, seja bem-vindo; se você for o Seu Sebastião querendo fincar o pé na água com sua garrafa pet de guaraná morno, favor apresentar o passaporte e o comprovante de renda de três dígitos.
O choque de realidade foi tão violento que provocou um fenômeno inédito na fauna política contemporânea: uniu surfistas descalços, biólogos marinhos, vendedores de mate gelado e até a atriz Luana Piovani numa cruzada épica contra o avanço das escavadeiras sobre as dunas. O embate nas redes sociais atingiu proporções homéricas. De um lado, a atriz desancava o senador com aquele veneno refinado que só os exilados em Portugal conseguem destilar; do outro, o parlamentar gravava vídeos indignadíssimo de paletó e gravata na sala com ar-condicionado, jurando que as praias continuariam públicas e que os críticos eram 'desinformados'. É uma cena digna de figurar no museu do absurdo nacional: o herdeiro de um clã político que passa as férias pilotando jet ski em Angra dos Reis explicando ao brasileiro assalariado que a privatização do litoral é para o próprio bem do banhista de Copacabana.
A imagem mais tragicômica dessa utopia praiana é imaginar a adaptação do clássico farofeiro brasileiro ao novo regime de concessão litorânea. O cidadão acorda às 5h da manhã, enfia a família num Uno Mille 97, viaja três horas na serra com a caixa de isopor cheirando a galinha ensopada e, ao pisar na praia de Ubatuba, dá de cara com um segurança de terno preto, óculos escuros e ponto no ouvido dizendo: 'Senhor, a maresia deste quadrante foi privatizada por um consórcio luxemburguês; para molhar o joelho na arrebentação são R$ 80 mais 10% de taxa de serviço do salva-vidas'. O brasileiro, que já paga imposto até sobre a sombra do poste, agora terá que declarar no Imposto de Renda quantas conchinhas o filho recolheu na beira d’água.
No fim das contas, a cruzada de Flávio Bolsonaro pelas praias é a consagração máxima da lógica de Brasília: onde houver um bem comum, gratuito e sagrado que o cidadão desfrute para esquecer as mazelas da vida, haverá sempre um nobre parlamentar disposto a colocar uma catraca, aprovar uma emenda constitucional e terceirizar a conta pro otário do contribuinte.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • O Cartão de Aproximação na Espuma da Onda Quando levar um caldo de três metros na rebentação, não se desespere para respirar: mantenha a mão levantada com o cartão de crédito pronto para passar na maquininha do guarda-vidas antes que o mergulho expire por falta de saldo.
- • A Taxa de Maresia no Contracheque Se respirar o ar salgado do mar, respire com calma e pelo nariz para não consumir oxigênio em excesso. O Senado estuda criar o DARF de Ozônio Costeiro cobrado por metro cúbico de brisa inalada.
- • O Isopor Camuflado com Terno de Linho Para furar o bloqueio dos seguranças do resort gourmet, embrulhe o seu frango com farofa numa pasta executiva de couro ecológico e diga que está levando 'documentos sigilosos para a reunião extraordinária do conselho de administração da areia'.
- • A Canga com Escritura em Cartório Antes de deitar a toalha no chão, consulte a certidão de ônus reais do grão de quartzo. Se o siri passar por cima do seu calcanhar sem pagar pedágio municipal, denuncie imediatamente ao Procon das Praias.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 3/2022, relatada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, prevê a extinção dos terrenos de marinha e transfere a titularidade dessas áreas — localizadas na faixa litorânea de 33 metros a partir da média da maré de 1831 — da União para estados, municípios e proprietários privados que já as ocupam. A proposta provocou forte reação de entidades ambientais, comunidades costeiras e figuras públicas, que alertaram para riscos de restrição de acesso público às praias e incentivo à ocupação imobiliária desenfreada em áreas ecologicamente sensíveis da costa brasileira.