Poucas manifestações da genialidade política brasileira se equiparam à maestria diplomática do senador Davi Alcolumbre quando o assunto é sentar na cadeira de presidente do Senado Federal. Ciente de que a polarização nacional é um excelente espetáculo para entreter a torcida nas redes sociais, mas um péssimo negócio para a circulação de verbas orçamentárias, o cacique do Amapá abriu o mais refinado balcão de negociações da história do Parlamento. O cardápio atende a todos os paladares ideológicos: para a oposição amedrontada, a promessa de pautar o debate sobre anistia e indultos; para o Palácio do Planalto, a garantia solene de que nenhum ministro de Estado será incomodado por pedidos de impeachment.
A arte de agradar a gregos e troianos sem desagradar ao próprio bolso transformou a candidatura de Alcolumbre em um fenômeno de quase unanimidade na Casa revisora. Enquanto analistas desavisados previam um embate sangrento entre o bloco bolsonarista e a base governista, os senadores de ambos os lados da trincheira fizeram fila indiana na antessala do gabinete do parlamentar para beijar o anel e registrar a respectiva encomenda paroquial. Quem pedia anistia saía com a esperança de um parecer jurídico benevolente; quem pedia relatoria de comissão saía com a caneta abastecida de tinta oficial.
O grande árbitro dessa partilha é, naturalmente, o Supremo Tribunal Federal, que acompanha as movimentações com a serenidade de quem sabe exatamente onde o calo aperta. Ao prometer colocar panos quentes nas investidas do Legislativo contra a Corte, Alcolumbre apresenta-se perante os ministros de toga preta como o único bombeiro capaz de evitar que o incêndio institucional consuma a Esplanada. Em troca do papel de pacificador supremo, o cacique cobra apenas o direito sagrado de distribuir as comissões mais ricas e gerenciar o fluxo das emendas parlamentares com a discrição que a boa camaradagem exige.
Dessa forma, o Senado Federal prepara-se para coroar seu antigo imperador em clima de festa cívica e pragmatismo absoluto. Não há perdedores no grande saldão da República: a direita ganha uma promessa que talvez nunca se cumpra, a esquerda ganha uma blindagem que custa caro ao contribuinte, e Alcolumbre ganha o martelo para bater o ritmo da valsa do poder pelos próximos dois anos. Afinal, em Brasília, nada pacifica mais os corações revoltados do que a doce perspectiva de um acordo unânime fechado à meia-noite.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • O Abraço Ecumênico do Balcão Unir petistas e bolsonaristas na mesma caravana de apoio sob a mágica promessa de que haverá cargos e relatorias para todo mundo.
- • A Engenharia da Paz Perpétua Prometer aos quatro cantos que vai conter o STF enquanto assegura aos ministros que não deixará nenhuma retaliação passar da porta.
- • A Moeda da Anistia Utilizar o sonho do perdão cívico como fiador de votos no plenário, sem nunca colocar a proposta em votação definitiva.
- • O Retorno do Rei Sem Coroa Provar que no Senado brasileiro os presidentes passam, as crises explodem, mas o controle da chave do cofre continua no mesmo bolso.
Movimentações no Senado e reportagens do G1 e Poder360 mostram a construção da candidatura de Davi Alcolumbre para reassumir a presidência do Senado, costurando acordos com a bancada do PL (acenando com pautas de pacificação/anistia) e com o governo Lula (garantindo estabilidade e governabilidade com o STF).