Dizem os manuais de zoologia política que não há predador mais feroz para um dirigente de esquerda do que outro dirigente de esquerda pertencente a uma corrente fracionária rival. Quem assiste de fora às manifestações públicas de fraternidade do Partido dos Trabalhadores não imagina a selvageria que corre solta nos bastidores das disputas internas pela presidência da sigla. Com a iminente saída de Gleisi Hoffmann do comando nacional do partido, os caciques das diversas tendências sacaram seus manifestos datilografados e deram início à mais emocionante batalha de aparelhos burocráticos desde o racha do Politburo soviético.
No centro do tatame, a corrente majoritária (Construindo um Novo Brasil - CNB) defende a manutenção do pragmatismo tradicional: alianças com o Centrão, cargos na Esplanada e moderação calculada para não assustar o mercado. Do outro lado da corda, as alas mais radicais exigem que a legenda rompa imediatamente com o neoliberalismo, encampe a estatização das padarias e convoque uma greve geral revolucionária — de preferência a partir das duas da tarde de uma terça-feira chuvosa, para não atrapalhar o café colonial da bancada.
O pomo da discórdia é o valioso espólio deixado pela gestão de Gleisi: o controle da máquina partidária, os relatórios de pesquisa qualitativa e, acima de tudo, o acesso privilegiado à caneta do fundo partidário e eleitoral, que distribui centenas de milhões de reais com a generosidade de um Papai Noel com carteirinha do sindicato dos metalúrgicos. Controlar a legenda significa ditar quem será candidato a deputado, quem terá verba de campanha para pagar os marqueteiros e quem será relegado ao ostracismo de discursar para duas cadeiras vazias no plenário da câmara municipal.
Enquanto os grupos debatem em conferências fechadas se o futuro da legenda deve ser disputado pelo prefeito de Araraquara, por um líder do Nordeste ou por um influencer de podcasts progressistas, os militantes de base assistem ao espetáculo com a perplexidade de costume. A única certeza inabalável é que, vença quem vencer a disputa interna, ao final do congresso todos subirão ao palanque de braços dados, cantarão a Internacional Socialista com a mão no peito e votarão a favor da próxima medida provisória que libera emenda parlamentar para o União Brasil.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Dialética da Cadeirada Disputar a liderança do partido é a única modalidade esportiva em que uma divergência sobre o artigo terceiro da tese do congresso pode justificar um rompimento eterno de amizade.
- • O Fundo Partidário Libertador Nada une com tanta força as diferentes correntes da esquerda quanto a chegada da parcela trimestral do fundo eleitoral na conta corrente do diretório.
- • A Tese de Quinhentas Páginas O dirigente passa seis meses redigindo um documento estratégico que será lido exclusivamente por ele mesmo e pelo corretor ortográfico do computador.
- • O Abraço de Tamanduá Depois de se chamarem de pelegos e traidores do proletariado durante a madrugada, os líderes posam juntos sorrindo para a foto oficial às oito da manhã.
Com a proximidade do término do mandato da deputada Gleisi Hoffmann à frente do Partido dos Trabalhadores, as diferentes alas internas (como a CNB e correntes de esquerda) deflagraram intensas articulações de bastidores para definir o novo presidente da legenda e o direcionamento político para as eleições de 2026.