Poucas coisas na história da República alcançam a voltagem de escárnio de uma festa de aniversário do presidente reeleito enquanto o adversário derrotado come hambúrguer requentado em exílio voluntário na Flórida. Ao completar 81 anos cercado de ministros bajuladores e parlamentares do Centrão recém-convertidos ao lulismo com a rapidez de quem descobre uma mina de ouro, Luiz Inácio Lula da Silva não se fez de rogado: assoprou as velinhas e usou a primeira fatia do bolo para disparar um torpedo de pura ironia contra a fuga repentina de Flávio Bolsonaro.
'É uma vergonha o que esse rapaz fez. Quem não deve, não teme; que medo é esse da Polícia Federal?', alfinetou o aniversariante entre risos dos convidados, exibindo a tranquilidade olímpica de quem já foi, voltou e agora assiste aos algozes de ontem se desmilinguindo na primeira curva da Tríplice Fronteira. Para um veterano que passou quinhentos e oitenta dias numa cela em Curitiba desafiando a Justiça de cabeça erguida, a imagem do primogênito do clã patriota fugindo de madrugada num carro rumo à Argentina com o RG plastificado na mão é a sobremesa mais deliciosa de todo o banquete.
A cena do Palácio do Planalto é a consagração do cinismo triunfante. Enquanto as lideranças da situação brindavam com espumante a consolidação do quarto mandato e a partilha dos ministérios mais gordos da Esplanada, a bancada de oposição passava o dia tentando justificar nos microfones por que o seu comandante supremo foi obrigado a cruzar a fronteira de madrugada para não ser alcançado pelo oficial de justiça do Supremo. A tese do martírio cívico perde qualquer resquício de seriedade quando o perseguido decide sofrer dentro da piscina de um condomínio de luxo nos Estados Unidos.
Lula apaga suas oitenta e uma velas ciente de que o maior cabo eleitoral do seu novo mandato não foram os programas sociais nem os discursos inflamados de palanque, mas a incompetência farsesca e a desfaçatez dos seus rivais. Em Brasília, onde a vingança institucional é o único prato que a classe política degusta com talheres de prata, ver o inimigo jurado implorando por asilo em Miami é o melhor presente que a velhice poderia proporcionar ao poder.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • O Chá de Coragem Presidencial Receitar bravura a quem fugiu de madrugada pelo acostamento da Tríplice Fronteira é a crueldade mais refinada do manual lulista.
- • O Bolo da Longevidade Comemorar o quarto mandato aos 81 anos rindo da desgraça do adversário é a prova de que a política brasileira cura qualquer artrose.
- • A Confraternização do Centrão Nada une partidos de todas as siglas tão rapidamente quanto um bolo com cobertura de cargos e a certeza de que a oposição está exilada.
- • O Martírio com Ar-Condicionado Dizer que foi expulso do Brasil por perseguição política enquanto escolhe compras no outlet da Flórida é a piada pronta do ano.
Nesta terça-feira (27 de outubro de 2026), durante a celebração de seu aniversário de 81 anos com ministros e aliados em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ironizou publicamente a saída do país do senador Flávio Bolsonaro logo após o resultado da eleição. Em tom duro e debochado, Lula afirmou que a fuga do parlamentar para os Estados Unidos foi 'vergonhosa', declarando que 'quem não deve, não teme' e alfinetando o adversário por tentar escapar das investigações do STF e da PF.