Se a diplomacia internacional busca uma fórmula mágica para pacificar zonas de guerra no Oriente Médio ou no leste europeu, basta enviar uma comitiva de mediadores para estagiar uma tarde inteira no gabinete da presidência da Câmara dos Deputados. O anúncio oficial de apoio conjunto das bancadas do Partido dos Trabalhadores e do Partido Liberal à candidatura do deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) consagrou o mais emocionante milagre ecumênico da política contemporânea: a reconciliação dos irmãos desavindos em torno da partilha das diretorias e relatorias mais rentáveis da Casa.
A cena beirou o sublime. Enquanto nas redes sociais e nos palanques de comício a militância petista chama os rivais de golpistas perigosos e a base bolsonarista devolve o cumprimento chamando os adversários de quadrilha comunista, as lideranças partidárias sentaram-se lado a lado para rubricar o mesmo termo de compromisso solene. O documento não trata de teses econômicas, reformas tributárias ou princípios morais: trata da divisão milimétrica dos gabinetes com banheira privativa, das verbas de liderança e do controle da Comissão de Constituição e Justiça.
Para viabilizar o consórcio do amor cívico, o atual comandante da Casa, Arthur Lira, operou com a precisão de um cirurgião de balcão de negócios. Cada lado da trincheira saiu do cartório com uma promessa sob medida: a oposição garantiu que a pauta de costumes e o projeto de anistia não serão sumariamente arquivados sem debate; a bancada governista assegurou que o Palácio do Planalto terá tranquilidade orçamentária e blindagem contra pedidos de impeachment para tocar a agenda ministerial.
Assim se consuma a grande comédia de costumes da democracia representativa brasileira. A plateia continua pagando ingresso caro para assistir ao duelo de gladiadores na arena do WhatsApp, sem desconfiar que nos camarins os gladiadores dividem a mesma garrafa de uísque doze anos e ensaiam a coreografia do beija-mão. No reino do Centrão, as ideologias passam, as paixões eleitorais esfriam, mas o apetite pelo rateio da máquina pública permanece eterno, santo e inabalável.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • O Ecumenismo da Sobrevivência Provar que não há divergência ideológica no universo que resista à promessa de uma relatoria orçamentária de cinco bilhões.
- • A Cerimônia do Amor Secreto Unir lulistas e bolsonaristas na mesma foto oficial de mãos dadas, mantendo a cara de ódio estritamente para o eleitor na internet.
- • O Bolo dos Noivos Fatiar os cargos da Mesa Diretora com régua milimétrica para que nenhum polo saia do altar sem a sua respectiva boquinha.
- • O Teatro para a Torcida Garantir que a briga de foice continue acesa nas redes sociais para que o cidadão não perceba que o casamento já foi registrado no cartório.
A sucessão da presidência da Câmara dos Deputados selou a união pragmática entre PT e PL em torno da candidatura de Hugo Motta (Republicanos-PB), articulada por Arthur Lira, na qual o partido do presidente Lula e a legenda de Jair Bolsonaro formalizaram apoio ao mesmo candidato para garantir espaço na Mesa Diretora e comissões temáticas.