Há um fenômeno meteorológico exclusivo do Brasil que a ciência moderna ainda não foi capaz de explicar: toda vez que o governo jura solenemente que a economia vai decolar rumo à prosperidade, a única coisa que atinge velocidade de escape e sobe para o espaço é a cotação da moeda americana e a taxa de juros do cartão de crédito. Nos últimos pregões, a moeda americana resolveu testar a estratosfera, flertando descaradamente com a barreira psicológica dos seis reais, enquanto os títulos públicos pagam juros que fariam agiotas medievais corarem de vergonha.
No comando da nave cambial, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, atua como um piloto de provas em meio à turbulência. A cada pronunciamento em que ele promete que o plano de corte de gastos 'está maduro e será apresentado na semana que vem', o mercado financeiro reage como um passageiro de avião que vê o comandante saltar de paraquedas: o dólar sobe mais três centavos, a bolsa cai dois por cento e os analistas de terno cáqui da Avenida Faria Lima correm para recalcular a inflação do cafezinho.
Enquanto isso, na ponta mais dolorosa da cadeia alimentar — a feira livre de domingo e o caixa do supermercado de bairro —, o cidadão brasileiro tenta realizar a proeza de comprar um quilo de carne de segunda sem precisar dar o carro financiado como entrada. A famosa picanha da campanha eleitoral de 2022 foi discretamente substituída na dieta popular por carcaça de frango enriquecida com fé e patriotismo, enquanto o preço do tomate e do café solúvel exige autorização prévia da gerência do banco.
Diante do descompasso entre a retórica do Planalto e o saldo bancário da população, a equipe econômica garante que tudo não passa de uma crise especulativa orquestrada por rentistas sem coração. O remédio proposto pelo Banco Central, como sempre, é aumentar os juros para deprimir ainda mais a atividade produtiva, numa lógica médica digna do século XVIII: para curar a anemia do paciente, aplica-se uma boa sangria com sanguessugas. A economia brasileira segue assim, flutuando no vácuo: o dólar na Lua, a Selic nas estrelas e o bolso do trabalhador enterrado no pré-sal.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Velocidade de Escape do Câmbio O dólar sobe tão rápido que quando o turista brasileiro termina de passar o cartão na padaria, o pão francês já aumentou trinta centavos no extrato.
- • A Dieta Metafísica A promessa da picanha foi cumprida em sua dimensão espiritual: o cidadão olha para a foto da carne no açougue e se alimenta da memória olfativa.
- • A Tática da Semana Que Vem O pacote fiscal de Haddad virou a versão econômica da cura da calvície: está sempre a sete dias de ser definitivamente revelado ao público.
- • A Alquimia da Selic Subir os juros para combater a inflação de alimentos é o método mais engenhoso do mundo para fazer o devedor pagar o dobro do empréstimo sem comer nada.
Com a escalada do dólar comercial se aproximando de R$ 5,80 a R$ 5,90 e as expectativas de inflação em alta, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central retomou o ciclo de alta da taxa Selic, enquanto o ministro da Fazenda enfrenta cobranças para detalhar um plano crível de contenção de despesas públicas.