Dizem os teólogos que o milagre da união dos contrários só ocorrerá no final dos tempos, quando o lobo habitará com o cordeiro e o leopardo se deitará com o cabrito. Em Brasília, contudo, o milagre escatológico não precisou de intervenção divina: bastou a promessa da presidência da Comissão de Constituição e Justiça e a chave do cofre da relatoria do Orçamento para que o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) realizasse a proeza de colocar o Partido dos Trabalhadores e o Partido Liberal na mesma fila de beija-mão.
Ungido pelo atual imperador do plenário, Arthur Lira, o jovem parlamentar paraibano construiu uma daquelas alianças que fariam Maquiavel pedir uma aspirina. Na mesma sala de café do Congresso, deputados petistas que passam o dia chamando a oposição de fascista e parlamentares bolsonaristas que passam a noite chamando o governo de quadrilha se cumprimentam com sorrisos calorosos, piscadelas cúmplices e tapinhas nas costas, unidos pelo nobre ideal de não ficarem de fora da divisão dos cargos da Mesa Diretora.
A retórica da polarização ideológica, que incendeia os grupos de WhatsApp da família e mobiliza multidões na internet, evapora com a rapidez do álcool em gel quando a conversa chega à distribuição dos gabinetes com vista para o lago e à cota de passagens aéreas internacionais. Para o PT, apoiar Motta é fundamental para não ter um presidente hostil que aceite pedidos de impeachment nas terças-feiras de tédio; para o PL, apoiar Motta é indispensável para garantir a pauta da anistia e o controle das CPIs mais barulhentas.
No centro do picadeiro, Motta sorri com a serenidade de um monarca absolutista que acabou de receber o tributo de todas as tribos do reino. Ele promete tudo a todos com a convicção de quem sabe que promessa de campanha parlamentar tem a mesma validade jurídica de um bilhete premiado de quermesse. O Brasil pode estar dividido em dois pólos irreconciliáveis, mas na Câmara dos Deputados a reconciliação é total, ecumênica e custa apenas algumas dezenas de milhões em emendas impositivas.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • O Ecumenismo Orçamentário A ideologia separa os homens na tribuna, mas o relator-geral do Orçamento une os corações no sigilo dos gabinetes acarpetados.
- • A Fila do Beija-Mão Ver um deputado do PT e outro do PL disputando quem elogia com mais entusiasmo o mesmo candidato do Centrão é a maior aula de realismo político do planeta.
- • A Gravidade Zero do Centrão Arthur Lira conseguiu o prodígio de transferir sua coroa sem precisar sair do trono: governa o passado, o presente e o sucessor por controle remoto.
- • O Princípio da Ambição Fraterna Não existe ódio ideológico em Brasília que resista a uma presidência de comissão com direito a quatro assessores de confiança e carro oficial.
A disputa pela presidência da Câmara dos Deputados em 2025 consolidou a candidatura de Hugo Motta (Republicanos-PB), apoiado pelo atual presidente Arthur Lira, atraindo o endosso simultâneo das duas maiores bancadas antagônicas do Congresso: o PT do governo Lula e o PL da oposição bolsonarista.