A mais nova ameaça à integridade do Produto Interno Bruto brasileiro não vem da guerra na Ucrânia, da desaceleração chinesa ou do preço do barril de petróleo: vem da ideia diabólica de permitir que o trabalhador assalariado descanse dois dias inteiros por semana. A Proposta de Emenda à Constituição que prevê a extinção sumária da venerável escala 6x1 desencadeou uma onda de desespero e pranto cívico entre associações comerciais, federações patronais e prefeitos de capitais pelo país afora. Para as lideranças do andar de cima, o descanso remunerado de 48 horas semanais é a antessala do apocalipse bíblico e da ruína moral da pátria.
O coro dos descontentes ganhou porta-vozes inflamados no municipalismo nacional. Prefeitos recém-reeleitos correram aos microfones para alertar, com lágrimas nos olhos e calculadoras na mão, que as contas públicas municipais simplesmente explodirão caso os servidores e terceirizados deixem de comparecer ao trabalho seis dias seguidos. Segundo o argumento técnico dos gestores, a prestação de serviços básicos — da coleta de lixo à emissão de alvarás — só se sustenta sob a premissa sagrada de que o cidadão precisa gastar quatro horas em ônibus lotado para cumprir expedientes exaustivos até a última gota de suor.
No setor de comércio e serviços, o terror não foi menor. Lojistas e industriais já começaram a prever o fechamento em massa de padarias, farmácias e shoppings centers, sob a justificativa de que o brasileiro comum não saberá o que fazer com tanto tempo livre no domingo sem correr o risco de desaprender a nobre arte da submissão produtiva. 'Se o funcionário tiver tempo para passear na praça e ler um livro, ele começará a fazer perguntas difíceis sobre a taxa de lucro da empresa!', confidenciou um executivo à beira de uma síncope nervosa em seminário em São Paulo.
A batalha em torno da PEC da escala de trabalho escancara, com requintes de comédia perversa, a lógica do capitalismo cordial tropical. Enquanto deputados e senadores gozam de generosos recessos brancos, pontes de feriado e semanas legislativas que começam na terça à tarde e terminam na quinta de manhã, a simples hipótese de conferir um fim de semana digno a quem limpa o chão ou opera o caixa é tratada como um golpe de Estado comunista. Afinal, para a elite dirigente de Brasília, o trabalho sempre dignificou o homem — desde que o homem seja o outro e o trabalho não tenha hora para acabar.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Física do Suor Contínuo Demonstrar por gráficos econômicos que a economia nacional só gira se o cidadão não tiver tempo de coçar a cabeça no sábado à tarde.
- • O Pranto dos Prefeitos Calcular que o fim do expediente ininterrupto causará rombos fiscais maiores do que os contratos sem licitação da própria prefeitura.
- • A Doutrina do Cansaço Defender solenemente que o sono e o lazer são luxos incompatíveis com a vocação do Brasil como celeiro de mão de obra barata.
- • A Jornada VIP do Congresso Votar contra o descanso alheio direto de um plenário que só registra quórum três dias por semana entre duas viagens oficiais.
Declarações públicas de prefeitos (como Sebastião Melo de Porto Alegre) e entidades empresariais criticaram o avanço da PEC do fim da escala 6x1 no Congresso Nacional, alegando que a redução da jornada sem redução de salários aumentará despesas públicas e custos do setor de serviços, gerando forte reação nas redes sociais.