A bancada de oposição no Congresso Nacional acaba de tropeçar na mais requintada armadilha da Constituição de 1988: o teorema da física judiciária segundo o qual nada se cria, nada se perde, tudo o Palácio do Planalto indica. Após meses de marchas cívicas, pronunciamentos inflamados na tribuna e abaixo-assinados digitais exigindo a cabeça do ministro Alexandre de Moraes em bandeja de prata, os estrategistas do Partido Liberal sentaram-se à mesa com uma calculadora e um exemplar do regimento interno. O resultado da soma aritmética produziu um pânico silencioso nos corredores do Senado: se o plano der certo e a toga de Moraes for confiscada, quem tem a caneta para escolher o ocupante vitalício da cadeira pelos próximos trinta anos é ninguém menos que Luiz Inácio Lula da Silva.
A descoberta da realidade normativa caiu como uma bigorna de desenho animado sobre o entusiasmo dos guerreiros da internet. Nos gabinetes de Brasília, o debate antes heroico transformou-se em uma sessão de sofrimento shakespeariano: convém arrancar o algoz supremo das noites de insônia para ver entrar um jurista ainda mais alinhado ao governo de turno? 'É trocar o carrasco que já conhecemos por uma surpresa embalada em veludo vermelho', murmurava um senador aflito, enquanto apagava discursos inflamados e pedia moderação à sua assessoria de imprensa.
A matemática do desespero atingiu também as bancadas evangélicas e do agronegócio, que rapidamente perceberam o risco de criar a 'terceira vaga lulista' no tribunal antes do tempo regulamentar. O temor de que a cadeira vaga seja preenchida por outro nome de estrita confiança do Planalto fez com que o ímpeto vingativo fosse bruscamente substituído por uma súbita e comovente paixão pelo cumprimento burocrático de ritos processuais demorados. Nos bastidores, caciques partidários já sussurram que a paciência bíblica talvez seja uma virtude bem mais prudente do que a vitória parlamentar imediata.
Assim, a comédia institucional brasileira atinge seu ponto de cozimento perfeito: os maiores adversários de Alexandre de Moraes agora precisam rezar secretamente pela saúde, pelo vigor e pela permanência inabalável do ministro na Primeira Turma do STF. Afinal de contas, na selva dos Três Poderes, pior do que a caneta monocrática de quem manda hoje é a perspectiva de ver a oposição trabalhando de graça como agência de recrutamento para o quarto mandato presidencial.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • O Teorema da Vaga Maldita Descobrir que a vitória dos sonhos no plenário do Senado resultaria no maior presente de Natal antecipado para a liderança do governo.
- • A Moderação de Emergência Ver deputados da bancada da bala sussurrando súplicas pela estabilidade institucional para não abrir concurso público para a toga.
- • O Paradoxo da Calculadora Calcular que um Alexandre de Moraes na mão é muito mais seguro que dois substitutos indicados pelo Planalto voando.
- • O Voto de Silêncio Tático Engolir o megafone e guardar as faixas de protesto na gaveta sob a desculpa de preservar a harmonia entre os poderes republicanos.
Reportagem da Folha de S.Paulo revelou a mudança de postura nos bastidores do PL e da oposição no Senado: diante da possibilidade de pressionar pelo impeachment de Alexandre de Moraes, caciques da bancada conservadora entraram em alerta ao constatar que a vacância no STF daria ao presidente Lula o direito imediato de indicar um novo ministro para uma vaga vitalícia de até 30 anos.