O terceiro andar do Palácio do Planalto transformou-se em um mosteiro medieval de autoflagelação orçamentária, mas sem a parte do voto de pobreza. Desesperado para convencer a Faria Lima e o Banco Central de que as contas públicas brasileiras não são uma obra de ficção fantástica, o ministro Fernando Haddad trancou o primeiro escalão da Esplanada em uma maratona de reuniões sem hora para acabar. O objetivo oficial era encontrar dezenas de bilhões de reais em despesas obrigatórias passíveis de poda; o resultado prático foi a descoberta de que em Brasília todo gasto público é sagrado, imaculado e intocável.
A cada porta que o ministro da Fazenda bate com sua tesoura afiada, um colega de ministério surge armado com um telão interativo e um coro de assessores em desespero. Na Previdência, qualquer sugestão de pente-fino em benefícios irregulares é tratada como um crime de lesa-pátria contra os direitos humanos. Na Educação e na Saúde, a equipe técnica jura por tudo quanto é mais sagrado que congelar um centavo da dotação fará o país retroceder à Idade da Pedra. Até os ministérios menores, cuja única função é despachar relatórios protocolares, alegam que cortar sua verba de viagens ameaçará a soberania da República.
Do lado de fora do palácio de vidro, o mercado financeiro acompanha o conclave ministerial com o suspense de uma roleta russa. A cada intervalo de reunião que termina apenas com os ministros comendo biscoitinhos e elogiando a sensibilidade social do presidente Lula, o dólar comercial dá um salto acrobático e os operadores de bolsa colocam as mãos na cabeça. A Fazenda promete coragem para enfrentar os lobbies corporativos, mas nos bastidores os negociadores admitem que é muito mais fácil aumentar tributos sobre quem não tem gabinete em Brasília do que tirar a mesada de quem senta à mesa presidencial.
O espetáculo do ajuste fiscal encerra-se com o clássico balé dos carimbos institucionais. Para os investidores estrangeiros e os credores da dívida pública, a equipe econômica garante que a navalha descerá sem piedade para salvar o arcabouço fiscal. Já para a base partidária e os movimentos sociais, o Planalto jura com a mão no peito que nenhum direito adquirido será beliscado. Nesse teatro de sombras do orçamento federal, a única certeza é que a conta do almoço farto continuará sendo enviada, com juros compostos e correção monetária, para quem trabalha de sol a sol.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Teoria do Feudo Sagrado Defender com ardor patriótico a necessidade imperiosa de cortar gastos públicos, desde que a tesoura passe bem longe do próprio ministério.
- • O Conclave Sem Fumaça Branca Promover reuniões de doze horas com assessores engravatados para anunciar solenemente que foi marcada uma nova reunião preparatória para amanhã.
- • A Tesoura de Isopor Prometer um corte estrutural devastador de bilhões e entregá-lo sob a forma de economia de energia elétrica nos corredores da Esplanada.
- • O Pânico da Avenida Ver o mercado financeiro precificar o fim dos tempos a cada declaração de ministro dizendo que gasto social é investimento e vice-versa.
A maratona de reuniões de negociação fiscal no Palácio do Planalto, comandada pelo ministro da Fazenda Fernando Haddad e pelo presidente Lula, envolvendo pastas de peso orçamentário como Previdência Social, Trabalho, Saúde e Educação. O governo buscou fechar um pacote consistente de contenção de despesas obrigatórias para cumprir as metas do arcabouço fiscal, diante da desconfiança do mercado financeiro e da forte resistência política interna dos ministros em abrir mão de fatias de seus orçamentos.