A história das republiquetas tropicais sempre reservou um capítulo cômico para os governos no exílio, mas o senador Flávio Bolsonaro acaba de inaugurar a categoria de imperador de beira de piscina. Instalado em solo norte-americano após a engenhosa travessia terrestre pela Tríplice Fronteira, o nobre parlamentar decidiu que a derrota proclamada pelo Tribunal Superior Eleitoral era apenas um detalhe estatístico irrelevante e publicou uma carta solene autoproclamando-se o 'verdadeiro líder e presidente eleito da nação brasileira'.
A coroação de Fort Lauderdale durou exatamente o tempo de a proclamação circular nos grupos de mensagens de Brasília e provocar gargalhadas constrangidas até entre os correligionários mais dedicados do Partido Liberal. Percebendo que o papel de Juan Guaidó com sotaque da Barra da Tijuca estava soando mais como uma paródia involuntária do que como uma conspiração de Estado, a equipe de comunicação acionou a tecla 'backspace' em velocidade supersônica, apagando a autoproclamação antes que o almoço esfriasse.
A manobra sintetiza com precisão cirúrgica a tragédia bufa da oposição parlamentar: valentia retórica desenfreada enquanto o sinal do Wi-Fi do resort estiver com sinal cheio, seguida de recuo tático imediato assim que os advogados em Brasília avisam que usurpação de função pública no exterior não costuma prescrever no Supremo Tribunal Federal. O comando supremo da pátria amada, ao que tudo indica, passou a operar sob o regime de stories efêmeros de redes sociais.
Para a militância que ainda aguardava orientações estratégicas debaixo de chuva em frente aos quartéis, a imagem que chega dos canais da Flórida é uma obra-prima de desilusão cívica. Comandar a resistência nacional entre um mergulho na piscina aquecida e uma ida ao shopping center prova que, no grande teatro da política brasileira, a pátria amada só é inegociável até o momento em que o garçom traz a conta em dólar.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • O Mandato com Delete Autoproclamar-se chefe supremo da República é fácil e não paga imposto; a parte difícil é manter o post no ar quando o vexame atinge escala planetária.
- • A Geopolítica de Piscina Governar o Brasil a dez mil quilômetros de distância exige apenas uma espreguiçadeira confortável, protetor solar fator cinquenta e muita cara de pau.
- • O Efeito Guaidó Tabajara Tentar repetir o golpe da Venezuela com assessoria de gabinete de Brasília tem o dom milagroso de unir situação e oposição no mesmo riso frouxo.
- • A Coragem com Retratação Gritar que o país foi roubado é um direito inalienável da cartilha; apagar o texto duas horas depois é a prudência elementar de quem tem bens no Brasil.
Nesta terça-feira (27 de outubro de 2026), após viajar repentinamente para os Estados Unidos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou em suas redes sociais um manifesto contestando o resultado do segundo turno das eleições sem apresentar provas e autoproclamando-se 'líder e presidente eleito do Brasil'. Diante da intensa repercussão negativa e do isolamento político mesmo entre aliados de seu partido, o senador apagou os trechos em que se declarava presidente eleito poucas horas após a publicação.