Há momentos na liturgia política de Brasília em que o ruído das disputas parlamentares cessa por completo e resta apenas o som metálico, rítmico e aterrorizante de um relógio de pêndulo soando na Praça dos Três Poderes. Trata-se da contagem regressiva para a entrega do aguardado relatório final da Polícia Federal sobre a conspiração do 8 de janeiro e o contrabando de joias presidenciais. No gabinete do ministro Alexandre de Moraes, os calhamaços de delações e perícias telemáticas acumulam-se em pilhas que fazem o Código de Hamurabi parecer um folheto de farmácia, enquanto os gabinetes do Congresso Nacional entram em vigília espiritual.
A atmosfera nos corredores do Senado e da Câmara oscila entre a histeria coletiva e a súbita redescoberta da fé religiosa. Deputados que antes subiam na tribuna para ameaçar o Judiciário com fuzilamentos retóricos agora circulam munidos de aparelhos celulares novos, sem aplicativo de mensagens instalado, e consultam renomados advogados criminalistas com a urgência de quem precisa de um transplante de coração antes do almoço. 'Doutor, ter mandado um emoji de continência num grupo de WhatsApp configura tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito?', indaga um parlamentar aflito, enquanto roe as unhas até a cutícula.
No Supremo Tribunal Federal, o clima é de calma olímpica e teatralidade clássica. Entre goles de café servidos em xícaras de porcelana e acenos cordiais aos colegas de plenário, Moraes maneja a caneta com a precisão cirúrgica de quem sabe que cada linha digitada tem o condão de antecipar aposentadorias compulsórias e cancelar planos eleitorais para a próxima década. Para os alvos da investigação, a pior tortura não é a perspectiva da tornozeleira eletrônica, mas a imprevisibilidade do calendário judiciário: o relatório pode ser aberto numa pacata tarde de terça-feira ou às seis horas de uma nebulosa sexta-feira de sol.
Assim, o teatro do poder em Brasília descobre que a física quântica é verdadeira: o tempo é relativo, mas a caneta do relator é inexorável. Enquanto generais e caciques partidários ensaiam explicações miraculosas para minutas golpistas e depósitos não identificados, o pêndulo do Supremo segue balançando no compasso do Código Penal. E nos escritórios de advocacia do Lago Sul, os honorários disparam na mesma proporção em que diminui a esperança de que um milagre legislativo suspenda o tic-tac da história.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Amnésia Eletrônica Trocar de smartphone toda semana e esquecer a senha do backup na nuvem assim que a viatura preta da PF dobra a esquina.
- • O Emoji Inocente Tentar convencer o delegado de que um emoji de bomba e uma foto de tanque de guerra eram apenas votos de feliz ano novo aos amigos de farda.
- • A Oração do Habeas Corpus Manter uma petição de liberdade preventiva salva na área de trabalho do computador pronta para disparo automático às cinco da manhã.
- • O Tic-Tac Republicano Descobrir que o tempo em Brasília não passa em horas ou minutos, mas na velocidade em que os anexos da delação premiada são homologados.
A Polícia Federal está em fase final de conclusão do inquérito que apura a tentativa de golpe de Estado e a atuação de organizações criminosas após as eleições de 2022, envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, ex-ministros militares e parlamentares, com o relatório prestes a ser encaminhado ao ministro Alexandre de Moraes e à Procuradoria-Geral da República (PGR).