Há um fenômeno quase místico que costuma acometer os ocupantes do terceiro andar do Palácio do Planalto na metade de qualquer mandato: a convicção inabalável de que o governo está realizando a mais grandiosa obra civilizatória desde a fundação de Roma, mas a população teima em não perceber o milagre porque a Secretaria de Comunicação Social errou a trilha sonora dos vídeos institucionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou mais uma reunião de emergência com seu batalhão de 38 ministros para distribuir broncas em atacado e cobrar que as 'entregas históricas' do governo finalmente convençam o eleitorado a sorrir nas pesquisas de opinião.
Na visão presidencial, detalhada com a tradicional veemência operária dos velhos tempos de sindicato, se o cidadão comum na fila do caixa do supermercado suspira de angústia ao pagar trinta reais num pacote de café torrado e cinquenta reais numa lata de azeite, o problema não é a desvalorização cambial nem a taxa de juros do Banco Central — o problema é que o ministro da pasta correspondente não contratou influenciadores digitais suficientes para explicar ao consumidor a beleza poética do Produto Interno Bruto em alta.
A reunião ministerial, que em Brasília já ganhou o apelido carinhoso de 'missa do desespero marqueteiro', transcorreu naquele clima protocolar onde ministros do Centrão assentem gravemente com a cabeça enquanto respondem mensagens no WhatsApp negociando emendas com suas bancadas. Para a tecnocracia palaciana, a vida real se transformou em uma questão exclusiva de 'narrativa': basta trocar o slogan, mudar a cor do logotipo oficial e produzir reels dinâmicos nas redes sociais para que o trabalhador esqueça que o salário mínimo continua derretendo antes do dia dez do mês.
Enquanto a Secom queima milhões em campanhas publicitárias tentando vender um país de comercial de margarina onde todos viajam de avião e comem filé mignon no almoço de domingo, a realidade teimosa segue seu curso nas periferias. O brasileiro, que já sobreviveu a todos os planos econômicos e a todas as promessas de campanha da Nova República, sabe muito bem distinguir um prato cheio de comida de um powerpoint bem diagramado. Lula pode até convencer seus ministros de que o Brasil virou uma Suíça tropical de palanque; o difícil vai ser convencer o dono da quitanda a aceitar poesia governamental como forma de pagamento no cartão de crédito.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Gastronomia Publicitária Para o Planalto, quem não consegue comprar carne no açougue precisa apenas assistir a um vídeo de dois minutos no Instagram para se sentir plenamente alimentado.
- • O Ministério do Bocejo Trinta e oito pastas ministeriais servem para acomodar o Centrão, mas na hora de prestar contas ninguém sabe exatamente o que a própria secretaria produz.
- • O Algoritmo Ingrato Se a popularidade do presidente não decola, a culpa nunca é do rombo fiscal ou da inflação: é do feed das redes que insiste em mostrar o preço da gasolina.
- • A Suíça de PowerPoint Nos telões da Secom o Brasil é o país mais próspero e alegre do hemisfério sul; na porta do banco a fila do cheque especial dá a volta no quarteirão.
Ao final de outubro de 2026, o presidente Lula promoveu reuniões ministeriais de cobrança de resultados para pressionar ministros a acelerarem a execução orçamentária de programas sociais e obras do Novo PAC, manifestando descontentamento com os índices de aprovação estagnados nas pesquisas e com a comunicação do governo perante o aumento dos preços de itens básicos de alimentação e energia.