A República dos Pássaros Pretos e das Contas Ocultas ganhou mais um capítulo digno de comédia de costumes rodada em repartição pública. Pelas bandas de São Carlos, o nosso eterno picolé de chuchu, o vice-presidente Geraldo Alckmin, resolveu vestir o jaleco de paladino da transparência alheia para diagnosticar o oponente. Segundo o Doutor Geraldo, o senador Flávio Bolsonaro apresentou mais exigências que cliente inadimplente na hora de abrir a prestação de contas, recusando-se a escancarar os sigilos bancário, fiscal e telefônico. É aquela velha história: a autoridade adora que a auditoria caia no quintal do vizinho, desde que a própria contabilidade permaneça sob segredo de Estado.
Ocorre que cobrar transparência do adversário político no Brasil é igual pedir honestidade em mesa de carteado clandestino: todo mundo sabe que a carta debaixo da manga é o artigo de primeira necessidade. Alckmin, com aquela serenidade de quem já viu passar por cima de si mais emendas secretas do que padre em dia de quermesse, repetiu o mantra governista de que quem não deve não teme. Uma gracinha retórica que funcionaria muito bem se estivéssemos em Zurique, e não na terra onde o extrato bancário do poder público parece manuscrito trancado a sete chaves na biblioteca do Vaticano.
Do outro lado do ringue, a bancada dos Bolsonaro prefere manter a contabilidade mais protegida que cofre de paraíso fiscal. Afinal, abrir sigilo no Brasil de hoje é o equivalente a convidar a Receita Federal para uma auditoria ao vivo na hora do almoço: raramente termina com final feliz. As exigências colocadas na mesa para aceitar o debate funcionam como aquela cláusula de rodapé que ninguém lê, mas que garante que a conveniência de gabinete saia invicta.
Enquanto essa dupla de comediantes da alta roda troca acusações sobre quem possui o prontuário mais blindado, o eleitor assiste ao espetáculo sabendo que a única transparência garantida por lei é a da própria conta bancária no quinto dia útil. No fim das contas, a liturgia do cargo serve unicamente para decretar sigilo de cem anos sobre os segredos dos reis, enquanto a notificação de débito do contribuinte chega antes mesmo do café esfriar.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Liturgia da Rasteira Transparência só é bonita quando o extrato exposto é o do vizinho.
- • A Promessa de Papelão O debate de ideias que virou campeonato de quem esconde mais papéis.
- • O Malabarismo Fiscal Sigilo bancário virou patrimônio imaterial tombado pelo Congresso.
- • A Blindagem Perpétua Cem anos de sigilo para as decisões do poder, zero dias de prazo para o cidadão recolher o tributo.
Durante visita à Santa Casa de São Carlos (SP) nesta quinta-feira (22), o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro apresentou exigências para evitar a abertura de seus sigilos bancário, fiscal e telefônico nos debates eleitorais, reforçando a defesa da transparência feita pelo presidente Lula.