A Enel atingiu o ápice da inovação tecnológica contemporânea: conseguiu transformar a capital financeira da América Latina num retiro espiritual involuntário de monges franciscanos do século XII. Bastou uma brisa ligeiramente mal-educada balançar as folhas de um ipê na terça-feira para que dois milhões de paulistanos fossem arremessados diretamente para a Idade da Pedra Lascada. Na avenida Faria Lima, o executivo de colete puffer que passou a manhã inteira cagando regras sobre inteligência artificial quântica foi flagrado descendo 28 andares de escada de emergência no escuro absoluto, com a lanterna do iPhone mordida entre os dentes e rezando três ave-marias para a bateria não zerar antes de conseguir pedir um Uber a cavalo.
Dentro dos apartamentos, o cenário doméstico já atingiu níveis homéricos de insanidade. No quarto dia consecutivo de escuridão, a peça de picanha que estava no fundo do congelador atingiu a temperatura ambiente, desenvolveu sistema nervoso central e foi vista por testemunhas batendo na porta do quarto pedindo um copo d’água, um analgésico e o título de eleitor. Já o banho, esse luxo burguês extinto pela engenharia italiana, foi reinventado sob o método 'canequinha de plástico e berro de pânico': o cidadão esquenta três dedinhos de água numa panela velha no fogão a gás — se não tiver acabado o botijão —, joga nas costas tremendo mais do que um pinscher encharcado na geada e solta um uivo gutural que faz os cachorros do quarteirão inteiro começarem a uivar junto.
Mas o verdadeiro entretenimento circense está no duelo de comadres da política. O governador Tarcísio de Freitas, apóstolo fervoroso das privatizações que até ontem vendia a desestatização como o Santo Graal da eficiência germânica, apareceu no telejornal com aquela cara de delegado de blitz que acabou de flagrar um carro roubado sem estepe: 'A culpa é toda de Brasília! O vento foi federal! A árvore caiu em jurisdição da União!'. Do outro lado da trincheira, a militância do governo Lula soltou rojões de alegria com a desgraça alheia no Twitter, sambando sobre as ruínas da fiação: 'Viu só no que dá privatizar?'. Ou seja: ninguém manda um caminhão com escada pra emendar o fio arrebentado na calçada, mas os dois comitês de campanha já torraram três milhões de reais em anúncio patrocinado no Instagram para disputar na base da cusparada quem é o pai biológico do blecaute.
Enquanto isso, a diretoria da Enel emitiu uma daquelas notas oficiais redigidas com a clássica cara de pau de quem pede licença para roubar o relógio da vítima. A concessionária explicou, com ares de quem acabou de defender tese de física quântica em Sorbonne, que o problema foi a 'intensidade inédita e agressiva da atmosfera terrestre'. Aparentemente, a empresa comprou a rede de postes de São Paulo acreditando piamente que a cidade ficava localizada dentro de uma redoma de vidro com temperatura controlada no centro de Milão. 'Se não ventasse, não chovesse e os moradores não insistissem nessa mania esquisita de ligar a geladeira na tomada, a nossa energia seria padrão Suíça', declarou em pensamento o departamento de relações públicas da empresa.
A única coisa no estado de São Paulo que opera com 100% de estabilidade, sem oscilação de voltagem nem risco de curto-circuito, é o boleto da conta de luz. Ele chega com pontualidade suíça, devidamente inflacionado com taxa de iluminação pública fantasma, bandeira tarifária vermelha e cobrança proporcional por metro cúbico de ódio acumulado. Ao paulistano, resta a sabedoria trágica das grandes tragédias nacionais: comprar uma caixa de velas de sete dias no atacado e acender uma pro santo e outra pra Enel, torcendo para que a próxima ventania não sopre o Palácio dos Bandeirantes direto pra praia de Santos.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • A Picanha Senciênte O fenômeno biológico de sobrevivência em que o bife de R$ 90 apodrece na geladeira desligada a ponto de criar pernas, abrir a porta do freezer e sair pela sala pedindo CPF na nota e um ventilador.
- • A Aerodinâmica do Poste A descoberta da engenharia moderna de que um poste de concreto armado de 12 metros de altura tomba com menos vento do que o sopro de uma criança apagando velinha de aniversário de um ano.
- • O Banho do Pinscher Histérico O ritual matinal do cidadão de jogar três gotas de água morna nas costas nuas e emitir um grito agudo que faz o vizinho achar que a polícia invadiu o prédio com mandado de busca e apreensão.
- • O Romantismo Obrigatório A constatação poética de que o morador de São Paulo só consegue jantar à luz de velas quando a multinacional italiana decide que o amor tem que vencer a refrigeração.
Temporais com ventos fortes na Região Metropolitana de São Paulo provocaram quedas em série de árvores sobre a fiação elétrica, deixando mais de dois milhões de clientes da distribuidora Enel sem energia por dias seguidos. O apagão gerou prejuízos milionários no comércio e desatou uma guerra eleitoral de acusações mútuas entre o governador Tarcísio de Freitas (que exigiu a caducidade do contrato federal e culpou a Aneel) e o governo Lula/Ministério de Minas e Energia (que atacou os cortes de funcionários pós-privatização e a inoperância da empresa), enquanto a população sofria sem luz, água e refrigeração.