A história do direito penal brasileiro é pródiga em medidas cautelares criativas, mas nenhuma alcança o requinte de crueldade psicológica da decisão assinada pelo Supremo Tribunal Federal nesta segunda-feira: retirar de um parlamentar o direito sagrado de fugir do Brasil no momento em que as urnas e os tribunais fecham a conta.
Ao ser abordado pelos agentes da Polícia Federal logo nas primeiras horas da manhã, com a delicadeza litúrgica de quem recolhe ingressos na entrada de um cinema falido, o senador descobriu a dura realidade da geopolítica de gabinete. Não bastava entregar o passaporte comum; a ordem expressa mandava recolher também o diplomático, aquele livrinho azul-marinho que costuma transformar qualquer fila de alfândega internacional em tapete vermelho estendido com dinheiro público.
Nos bastidores da oposição, o clima é de consternação turística. Parlamentares habituados a pregar o amor patriótico nos microfones do plenário entraram em pânico ao perceber que o patriotismo compulsório pode obrigá-los a passar o verão em Cabo Frio, Caldas Novas ou na rodoviária de Goiânia. A ideia de que um nobre representante do povo tenha de circular pelas mesmas estradas esburacadas e pagar as mesmas tarifas aeroportuárias que o cidadão comum foi recebida nos gabinetes como uma grave quebra do decoro parlamentar.
Resta ao nobre senador a resignada tarefa de desempacotar o filtro solar importado e contemplar a paisagem de Brasília pela janela do apartamento funcional. No grande teatro institucional da República, nada amedronta mais uma autoridade do que ser condenada a viver sob as mesmas leis, a mesma moeda e as mesmas fronteiras que ela própria ajudou a legislar.
Dicas Práticas Para Não Enlouquecer com a Notícia
- • O Patriotismo de Rodoviária Defender as cores da bandeira nas redes sociais é sublime; ter que passar as férias no território nacional é considerado violação dos direitos humanos da casta.
- • O Efeito Livrinho Azul A perda do passaporte diplomático causa mais taquicardia em Brasília do que qualquer ameaça de CPI ou bloqueio de bens.
- • A Conexão Cancelada Conselhos fraternos para sair do país têm o dom milagroso de acelerar as impressoras de mandados no Supremo Tribunal Federal.
- • O Brasil Real Obrigatório A única penitência que realmente assusta um congressista é ser obrigado a conviver com o país que ele desenha no Diário Oficial.
Nesta segunda-feira (26 de outubro de 2026), a Polícia Federal intimou o senador Flávio Bolsonaro a entregar seus passaportes comum e diplomático, proibindo-o de deixar o país por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A medida cautelar foi tomada no âmbito de investigações em andamento no tribunal sobre movimentações financeiras atípicas e ocorreu após declarações públicas de aliados sobre eventual saída do parlamentar do país.